Eduardo Cordioli
Fisiologia Menstrual
I. Introdução
A menstruação é um fluxo periódico que a mulher
apresenta , decorrente de uma privação de estrogênio e progesterona
. Para que ocorra a menstruação , em intervalos de 28 dias, durante
3-5 dias , há privação hormonal . Com a queda dos hormônios
ocorre vasodilatação e vasoconstrição (predominantemente)
no endométrio . Aí , o endométrio necrótico é
descolado .
Há três hierarquias de hormônios envolvidos :
1. Hormônio hipotalâmico : hormônio liberador das gonadotrofinas
( GNRH ) . Recebe influências do sistema límbico e do córtex
.
ß
2. Hormônios adeno-hipofisários :hormônio folículo
- estimulante ( FSH ) e hormônio luteinizante ( LH ) . São secretados
em resposta ao hormônio hipotalâmico .
ß
3. Hormônios ovarianos : estrogênio ( EST ) e progesterona ( PGT
) . São secretados em resposta aos hormônios adeno-hipofisários
.
Os dois resultados significativos do ciclo menstrual são a liberação
de um só óvulo maduro , pelo ovário, a cada ciclo e a preparação
do endométrio para a implantação do óvulo fertilizado
.
II. Regulação neuroendócrina do ritmo menstrual
Os neurônios que contêm vários peptídeos
e que podem liberar ou inibir a secreção de gonadotrofinas são
encontradas no hipotálamo , mais especificamente no núcleo arqueado
. Há dois tipos de neurônios no hipotálamo : peptidérgicos
: produzem os hormônios de liberação . Exs : TRH , CRH ,
LRH , GNRH ; aminérgicos : produzem neurotransmissores : dopamina , noradrenalina
, melatonina , histamina e GABA . Os nn. dopaminérgicos e os noradrenérgicos
liberam neurotransmissores nos nn. peptidérgicos . A noradrenalina estimula
a liberação de GnRH e a dopamina inibe . É do equilíbrio
que vai haver a liberação pulsátil de GnRH. São
pulsos de pequena amplitude e baixa freqüência . O nn dopaminérgico
também inibe a produção de prolactina . Isso é importante
pois o excesso de prolactina inibe a produção de LH e FSH . O
percursor comum dos neurotransmissores é a tirosina . A tirosina se transforma
em dopamina que é precursora da nor .
O GnRH é secretado , então , segundo um padrão pulsátil
e é responsável pela liberação pulsátil de
gonadotrofinas , que por sua vez contribuem para a secreção pulsátil
dos esteróides sexuais dos ovários . Mas nem toda gonadotrofina
produzida é secretada . Uma parte fica armazenada na hipófise
, fazendo parte de um compartimento de reserva .
O estrógeno tem a capacidade de controlar a quantidade de hormônio
que lhe estimula ( feedback negativo ) . Quando aumenta o estrogênio diminui
o FSH e o LH . O feedback é sempre negativo , só é positivo
quando o estradiol está na quantidade máxima . Aí ocorre
liberação do LH e do FSH que estavam no compartimento de reserva
. O aumento de LH e do FSH é importante para que ocorra o rompimento
do folículo . Com a liberação do oócito resta o
corpo lúteo que produz estrógeno e progesterona . Aí o
feedback volta a ser negativo . Se não ocorrer fecundação
o corpo lúteo involui , diminui os hormônios e o feedback volta
a ser negativo .
III. Função dos hormônios
gonadotróficos
Ovários que não são estimulados
por LH ou FSH permanecem inativos , como ocorre durante toda a infância
, quando quase nenhum h. gonadotrófico é secretado . Todavia ,
entre 9 e 10 anos de idade , a hipófise começa a secretar mais
FSH e LH , culminando no início dos ciclos entre os 11 e 16 anos de idade
. Esse período é chamado puberdade , e o primeiro ciclo menstrual
é a menarca .
Tanto o FSH , quanto o LH estimulam suas células - alvo , combinando
- se com receptores de FSH e de LH altamente específicos nas membranas
celulares , daí aumenta - se a velocidade de secreção dessas
células , bem como o seu crescimento e proliferação . Quase
todos esses efeitos resultam da ativação do sistema de segundo
mensageiro AMPc .
Durante os primeiros dias após o início da menstruação
, verifica-se aumento leve a moderado nas concentrações de FSH
e LH , sendo que a elevação do FSH precede por alguns dias a do
LH . Esses hormônios , principalmente o FSH , são responsáveis
pelo crescimento acelerado de 6 a 12 folículos primários a cada
mês . O efeito inicial é a rápida proliferação
de células da granulosa . Depois há a formação das
tecas interna ( produção de esteróides ) e externa ( cápsula
de tecido conjuntivo ) . A massa das células granulosa secreta o líquido
folicular , que contém estrogênio , e com isso forma o antro .
Uma vez formado o antro as células se multiplicam mais rápido
para formar o folículo antral . O crescimento do folículo primário
até o antral é estimulado principalmente por FSH .O FSH atua nas
células da granulosa aromatizando os androgênios , transformando-os
em estrogênios . A seguir ocorre um crescimento acelerado dos folículos
antrais resultando na formação dos folículos vesiculares
. Esse crescimento acelerado é devido a três fatores : 1. O estrogênio
é secretado no folículo e torna as células da granulosa
mais sensíveis ao FSH Þ feedback positivo . 2. O estrogênio
+ FSH promovem a formação de receptores para o LH nas células
da granulosa . 3. LH + estrogênio aumenta estimula o crescimento de células
tecais foliculares .
Dos 6 - 12 folículos primários que começaram a se desenvolver
, apenas um tornará o folículo maduro de Graaf , de 1 - 1,5 cm
, os demais involuiram num processo de atresia .
O LH é necessário para a fase final do crescimento folicular e
para a ovulação , na verdade há um surto de LH . Aproximadamente
2 dias antes da ovulação há o aumento de LH que atinge
seu pico 16h antes da ovulação . O FSH também aumenta um
pouco . O LH atua especificamente nas células da teca interna , transformando
- as em células secretoras de androgênios e progesterona ( Detalhadamente
O LH age na conversão de colesterol em pregnolona ) . Antes de se formar
o corpo lúteo as células da granulosa aromatizam esses androgênios
e progesterona em estrogênios . Com a formação do corpo
lúteo há muito androgênio e progesterona para pouca granulosa
, daí há a secreção acentuada de progesterona ,
já que a granulosa vai aromatizar preferencialmente o androgênio
masculino .
Nas primeiras horas que se seguem à expulsão do óvulo ,
as células da granulosa remanescentes transformam-se em células
luteínicas . Essas células crescem rapidamente e tornam-se repletas
de inclusões lipídicas . A massa total de células torna-se
o corpo lúteo , pela ação do LH. Essas células secretam
progesterona e estrogênio , principalmente o primeiro . As células
da teca produzem os androgênios ( androstenediona e testosterona ) , mas
a maior parte destes h. é convertido em estrógeno pela granulosa
. Na mulher normal o corpo lúteo cresce até 7-8 após a
ovulação . A seguir ele começa a involuir e , eventualmente
perde a sua função secretora em 12 dias após a ovulação
, transformando-se no corpus albicans.
O estrogênio , em particular , e a progesterona , em menor grau , secretados
pelo corpo lúteo durante a fase lútea do ciclo ovariano exercem
um feedback negativo na hipófise , diminuindo a secreção
de FSH e LH , que por estarem diminuídos levam a involução
do corpo lúteo 26 dias após a menstruação . Neste
estágio a queda do EST e da PGT e um aumento de FSH e LH , novamente
, começando assim um novo ciclo.
Essa divergência nos níveis do LH e do FSH pode ser devido à
ação inibitória preferencial dos estrógenos na liberação
de FSH ( a não ser quando o estradiol está no máximo )
e possivelmente pela ação da inibina , um hormônio secretado
pelo folículo em desnvolvimento que inibe a secreção de
FSH .
IV. Funções dos hormônios
ovarianos
Os dois tipos mais comuns de h. sexuais ovarianos são
os estrogênios e as progestinas , sendo o estrogênio mais importante
o estradiol e a progestina mais importante a progesterona . Ambos os horm. são
esteróides derivados do colesterol sangüíneo , mas em menor
parte da acetilcoenzima A . Os estrogênios promovem principalmente a proliferação
e o crescimento de células específicas no organismo e são
responsáveis pelo aparecimento da maioria dos caracteres sexuais secundários
da mulher . Por outro lado , as progestinas estão implicadas com a preparação
( estimular secreção ) final do útero para a gravidez e
das mamas para a lactação .
Apenas três estrogênios estão presentes em quantidades significativas
no plasma da mulher : b-estradiol, estrona , estriol . O ovário é
o principal secretor de estrogênio , embora quantidades ínfimas
sejam secretadas pela supra-renal . A maior parte desse hormônio é
formada a partir da aromatização dos androgênios secretados
pelo córtex supra - renal e pelas células da teca do ovário
. Na menácme o principal horm. da mulher é o estradiol ( derivado
da testosterona ) , na menopausa é a estrona (derivado da androstenediona
) . O estradiol e a estrona são metabolizados no fígado ou transformados
em estriol ( baixa potência ) . Uma queda da função hepática
acarreta num hiperestrogenismo .
O principal produto final de degradação da progesterona é
o pregnanediol . Cerca de 10% da progesterona são excretados na urina
sob essa forma . Por conseguinte , é possível estimar a velocidade
de formação da progesterona a partir de sua velocidade de excreção
.
O estrogênio atua em vários órgãos alvos . Os órgãos
sexuais femininos se desenvolvem na puberdade por ação do estrogênio
. Há alteração do epitélio vaginal de tipo cubóide
, transformando - se em estratificado , que é mais resistente ao traumatismo
e infecção . Algumas infeções nas crianças
como vaginite gonorréica podem ser curadas pela administração
de estrogênio . Além disso o epitélio sem estrogênio
está pálido e delgado . Com o estrogênio o epitélio
sofre espessamento e coloração arroxeada . O estroma do endométrio
se prolifera e há intensificação do desenvolvimento das
glândulas endometriais . O colo na fase estrogênica do ciclo está
edemaciado . A quantidade de muco cervical aumenta , da mesma maneira que sua
elasticidade . Sob a influência da progesterona o muco torna - se espesso
e menos aquoso . As características do muco cervical e as alterações
histológicas do epitélio vaginal são clinicamente úteis
para determinação da fase menstrual . Além disso , o estrogênio
causa desenvolvimento dos tecidos do estroma das mamas , crescimento do sistema
canalicular e deposição de gordura nas mamas . Os estrogênios
possuem alta atividade osteoblástica , mas causam a fusão precoce
das epífises com as diáfises dos ossos longos ( = baixinhas )
. Há a osteoporose por deficiência de estrogênio na velhice
. Há também um aumento do metabolismo e deposição
de quantidades aumentadas de gordura nos tecidos subcutâneos . A pele
adquire textura macia , geralmente lisa e maior vascularização
. O efeito intra-celular do estrogênio é interagir diretamente
com o DNA cromossômico e assim desencadear maior produção
proteica , via RNAm .
A progesterona tem como função principal promover alterações
secretoras do endométrio uterino , preparando assim o útero para
a implantação do óvulo fertilizado . Este hormônio
também estimula o desenvolvimento dos lóbulos e dos alvéolos
das mamas , adquirindo as células alveolares características secretoras
. Todavia , na realidade , a progesterona não ocasiona a secreção
de leite pelos alvéolos , o leite só é secretado pela ação
da prolactina , secretada pela adeno-hipófise . A progesterona também
é responsável pela estimulação de 2 tipos de prostaglandinas
: E2 e F2a . Uma é vasodilatadora e a ou vasoconstritora , respectivamente
.
V. Ciclo endometrial e menstruação
Há três fases no ciclo menstrual :
Fase folicular ® A fase folicular começa no primeiro dia de sangramento
menstrual e estende - - se até o dia anterior ao surto pré - ovulatório
de LH ( +/- 11 dias ) . A elevação de FSH começa no final
da fase lútea anterior e estimula o crescimento do folículo. Passado
o começo da fase folicular , o teor da FSH vai diminuindo e o LH aumenta
lentamente . O estrógeno aumenta consideravelmente durante esse período
e atinge um máximo um dia antes do surto de LH . O endométrio
responde a um aumento de estrógeno com a proliferação das
camadas superficiais e intermediária , com um aumento resultante no número
de glândulas endometriais . A menstruação dura de 3-5 dias
e acontece primariamente por uma diminuição da secreção
de estrogênio e progesterona , que acarreta num estroma cada vez mais
edematoso , ocorrendo necrose do endométrio e de vasos sangüíneos
e sobrevem assim o sangramento endometrial . A liberação local
de prostaglandinas pode iniciar o vasoespasmo e a necrose isquêmica do
endométrio , bem como as contrações uterinas que acompanham
o fluxo menstrual . A atividade fibrinolítica no endométrio torna
- se máxima na época da menstruação , devido à
fibrinolisina , sendo responsável pela não coagubilidade do sangue
menstrual.
Fase ovulatória ® Durante essa fase o óvulo é liberado
do folículo de Graaf maduro após 16 a 32 horas após o início
do surto de LH . Esta fase dura 3 dias ; 1 dia antes do surto , até um
dia depois . Pode haver a mittelschmerz , que é uma dor pélvica
breve , unilateral . A mittelschmerz pode ocorrer um pouco antes ou depois da
ovulação , ou pode não ocorrer . Durante essa fase o LH
chega no seu valor máximo , com um aumento da progesterona e uma queda
de estrógeno .
Fase lútea ® Tem cerca de 14 dias e termina com o início da
menstruação . Nesta fase a progesterona aumenta até atingir
o máximo dentro de 6 a 8 dias após o surto de LH . A progesterona
aumenta a temperatura corporal pela manhã em +0.3° . Sob a influência
da progesterona as glândulas endometriais tornam - se espiraladas e secretoras
, com um aumento da vascularização e edema do estroma .